A Madeira tem investido nos últimos anos numa campanha de promoção turística sob o slogan "Body. Mind. Madeira" que faz a apoteose dos seus santuários naturais e do contacto directo com os elementos da natureza no seu estado mais puro e menos espoliado pelo Homem. Essa campanha de promoção faz uso de imagens de belas paisagens onde a natureza reina e a presença humana é quase imperceptível, denunciada apenas pela presença dos conhecidos canais de transporte de água: as levadas.
Apesar desta promoção turística ser feita à luz dos valores naturais, das belas paisagens e da pureza do ambiente que ainda é possível encontrar na ilha da Madeira, várias opções do governo regional têm posto em causa esses mesmos recursos. Nas últimas duas décadas, em particular no litoral sul da ilha, a paisagem madeirense foi profundamente alterada e artificializada. Apesar de muitas das obras responsáveis por esta degradação da paisagem serem de grande importância para o desenvolvimento da Região e para a qualidade de vida dos madeirenses, muitas foram desenvolvidas sem os necessários cuidados em reduzir o seu impacte ambiental e outras tantas, pura e simplesmente, eram completamente desnecessárias. Neste último caso enquadram-se os enrocamentos que polvilham o litoral madeirense e a canalização, quase até à nascente, de inúmeras ribeiras. Veja-se, por exemplo, o impacte paisagístico que tem a "cidade turística" que, depois da marina, está em construção na Quinta do Lorde, em plena Reserva Natural da Ponta de São Lourenço, Parque Natural da Madeira e Sítio da Rede Natura 2000. Neste cenário, restava o consolo de que a partir de uma determinada altitude, onde reina o Parque Natural da Madeira e a floresta Laurissilva, a avidez de fazer obra física e artificializar o território estaria contida. No entanto, o alargamento e a pavimentação da estrada do Fanal e a actual intenção de asfaltar a estrada que liga São Vicente ao Paul da Serra, através do Chão dos Caramujos, foram já importantes alertas sobre o perigo da existência de uma vaga de obras que, depois do litoral, se volte para as serras da Madeira.
Agora, através da Sociedade de Desenvolvimento Posta Oeste, o governo regional está empenhado em construir um teleférico no Rabaçal, em pleno coração da Laurissilva, cruzando cabos, cabinas e postes numa paisagem soberba que é, todos os anos, desfrutada por milhares de turistas e madeirenses e captada em inúmeros vídeos e fotografias. Um santuário natural no interior da Madeira que vale pela sua distância psicológica à civilização e pelo agradável percurso e contacto directo com a natureza.
Se a condenação de um dos mais procurados e interessantes passeios a pé nas nossas levadas não fosse uma razão suficiente para abandonar a ideia de construir um teleférico no Rabaçal, pelo menos o facto de estarmos perante um valor Património Mundial Natural da UNESCO, uma Reserva Biogenética do Conselho da Europa, um Sítio da Rede Natura 2000 e um habitat prioritário onde ocorrem inúmeras espécies exclusivas da Madeira, deveria ser mais do que suficiente para afastar por completo essa ideia.
Esta avidez de fazer as mais inexplicáveis obras e de explorar até ao tutano o turismo recorrendo à sua massificação lembra-me a história da galinha dos ovos de ouro. Se muitos dos que nos visitam lamentam o excesso de construção no litoral sul da ilha mas consolam-se com a beleza da costa norte e das nossas serras, que reacção terão dentro de alguns anos se continuarmos a construir paredes, abrir estradas, cruzar cabos e levantar postes até ao Pico Ruivo?.
Hélder Spínola
in: Diário de Notícias
Data: 14-11-2008